Lenda da Maldição do Padre e do Burro

“Lavras jamais haverá de progredir”

—-Corriam os tempos esquecidos da incipiente povoação de Lavras. Lá pelos idos de 1848. Poucos anos depois da construção da Capela de Santo Antônio.—-Como é sabido, as primeiras famílias que para aqui acorreram aqui se fixaram em razão da exploração do ouro.—-Na dita Capela, depois dos ofícios religiosos, eram realizadas reuniões comunitárias. Esse primeiro templo de fé cristã construído em Lavras, foi, também, um repositório de coisas terrenas. Por muitos moradores ele foi escolhido como um lugar seguro para a guarda de seus documentos, objetos pessoais e, por vezes, suas burras cheias de ouro e patacões de prata, visto ser aquele povo primitivo muito temente a Deus. —-Nessa antiga Capela, aos cuidados do Padre Vigário, eram então guardados os ditos valores em custódia, cuja segurança dormitava na santa paz do Senhor. —-Contavam os antigos moradores que um certo garimpeiro passou anos e anos bateiando, perseverante, nas areias e cascalhos do nosso rio, então fagueiro e dadivoso. Num certo dia, apartou uma quantidade suficiente de seus gramas de ouro e os fundiu em uma barra quadrangular de considerável peso, para, futuramente, ser partilhado o seu valor em quinhões hereditários entre os seus filhos. —-Pai amantíssimo e previdente, ele foi pedir ao Padre que guardasse ali, no silêncio da Capela, aquele seu honrado patrimônio.—-Vindo ele falecer anos depois, seus filhos foram chamados pelo bom Padre, que, em tom solene, entregou-lhes a valiosa barra de ouro, cumprindo assim sua última vontade de sensato garimpeiro. —-Seus herdeiros, de imediato, encaminharam-se à casa de um ourives, já aqui estabelecido, para que ele aferisse o seu peso e a avaliasse, a fim de ser procedida a sua partilha amigável. Possuidores daquela barra de ouro, imaginavam-se donos de uma fortuna expressiva. —-Feita a competente perícia, eles descobriram o grande embuste do qual teria sido vítima o seu velho pai, pois, na realidade, a valiosa barra era de chumbo! Com o mesmo molde original, mas revestida apenas com uma fina camada de ouro, camuflagem urdida, criminosamente, para embaí-los a cair num erro, caso não fosse tomada essa ocasional providência. Cientificaram-se então, pelo ourives, de que não era maciça e seguramente havia sido trocada. —-Passaram-se alguns dias. O Padre Vigário, ouvindo em confissão o seu acólito, tornou-se reticente, respondendo com evasivas as perguntas nervosas que lhe eram feitas a respeito da estranha barra de chumbo. —-Diante do seu silêncio comprometedor, resolveram os herdeiros do malogrado garimpeiro fazer-lhe vingança e, sem demora, puseram-se a elaborar um plano. —-Colocaram dois pelegos num lombo de um burro tordilho e, chegando em frente à Capela, prenderam o esperto padre. Com um maneador sovado, ataram as suas mãos às costas e, com o restante da corda, ataram os seus pés por debaixo da barriga da sua indecorosa montaria. —-Com ele assim, feito um espantalho, montado no burro tordilho, saíram levando-o pelo cabresto, em desfile vexaminoso pela Rua Grande, a todos proclamando o seu ato criminoso. Ele, coitado, sofreu a imposição daquela pena infamante!—-O povo acorreu logo. Homens e mulheres, proferindo-lhe impropérios, fizeram-lhe um cortejo memorável até o outro lado do rio.—-Lá chegando, para nunca mais verem o padre, ataram uma lata cheia de pedras, pendente à cola do burro, que fugiu, espavorido, carregando no lombo o infeliz vigário.—-Aquela raivosa procissão de paroquianos assistiu, do outro lado do arroio, a sua triste partida, para nunca mais. —-Foi a vingança impiedosa do povo do lugar àquele padre safado!—-Sabe-se através da tradição oral, que o infeliz vigário, vendo-se afinal abandonado no meio do caminho, antes de seguir a sua viagem de exílio, teria olhado para trás, para a cidade que se descortinava ao longe, lançando este terrível prognóstico ao futuro da cidade: “Lavras jamais haverá de progredir!”—-Os dias se passaram, e a expulsão do Padre haveria de se tornar motivo de chacota e zombaria e uma grave advertência a outros possíveis embusteiros que pretendessem aproveitar-se da boa fé do povo de Lavras. —-Certa manhã, duas religiosas que tinham ido rezar pra Santo Antônio encontraram, junto ao altar da Capela, uma carta endereçada ao povo da cidade. Medrosas e chilicantes, foram-se a contar, de casa em casa, o que nela havia escrito. —-Aquela população que, tempos atrás, havia ajudado a expulsar o padre, acompanhando-o em procissão pela Rua Grande, ao lembrá-lo, tão humilhado e triste, montado no burro zaino, ficou estarrecida com esta nova e espetacular revelação: a dita carta tinha sido escrita pelo antigo sacristão, que a convite do Padre, tinha aqui chegado sem ninguém saber de onde viera. Moço ainda, estranhamente ele cultivava uma vida solitária. Morava nos fundos da Capela e, meio arredio, proseava pouco e com poucos se relacionava. —-Nessa carta, deixada sobre o altar da Capela, antes de fugir, o astuto sacristão pedia que lhe perdoassem e indicava o lugar do esconderijo da verdadeira barra de ouro, única herança deixada aos seus filhos por aquele honrado garimpeiro. Contava, também, os seus pequenos furtos, jóias e mentiras há muito perdoadas. Voltaram à tona os lances dramáticos daquele dia da expulsão do padre. —-Sobrevieram as rezas, os mil perdões e as penitências frente ao altar da nova Capela, em cujo confessionário, dias antes de partir, havia o inditoso padre perdoado em confissão aquele sórdido crime do seu sagaz acólito.—-Após essa derradeira revelação, todo o povoado sentiu-se culpado pelo acontecimento insólito da expulsão do vigário. Lavras, vestida de pesar, curtia a dor da ingratidão. Os seus habitantes pediam a todos os santos que a praga rogada pelo padre não recaísse sobre o futuro lugar.—-Mandaram próprios a todas as estradas. Tentaram em vão, localizar o padre, buscá-lo de volta, mas dele nunca mais souberam notícias. —-Depois disso, os moradores da cidade se cruzavam pensativos pela Rua Grande, sem os costumeiros e alegres bons-dias. Havia uma geral contrariedade. —-Sobrevinda esta apatia, Lavras, irremediavelmente, ficou parada no tempo, cumprindo a sua sina de terra amaldiçoada.—-Nasceram-lhe então dias cinzentos, com o frio cortante dos seus primeiros e rigorosos invernos, suas geadas grandes, que emendavam dias e dias, sem levantarem o seu lençol do campo. Anos de escassez e de colheitas magras sobrevieram, quando começaram a definhar os seus extensos parreirais e as suas árvores de fruta. Seu ouro aprofundou-se, silenciaram os seus engenhos e as companhias de mineração foram-se embora. —-A esse tempo, várias famílias, se mudaram para a capital, e as suas casas, fechadas, deixaram as suas ruas mais vazias, dando-lhe o triste aspecto de uma cidade-cemitério. —-Em Lavras, nada tinha sucesso. Latejava, em todos, vontade de ir embora…—-“Que Lavras termine!” “Lavras é o fim do fim!” “Pior que Lavras só Lavras em dia de chuva!” Essas eram as frases ditas por todos os cantos do lugar. —-O inditoso Padre foi expulso da cidade e a história já esqueceu o seu nome, nem lhe descreve o rosto, tornou-se assim o protagonista da lenda mais popular de Lavras. Contaram-na os lavrenses de todas as épocas e gerações e, ainda hoje, ela é conhecida pelos jovens. —-As pessoas idosas relacionam, hoje, com amarga lembrança, o que Lavras já teve: a Banda Municipal de Música, que tocava retretas na Praça; dois cinemas e um cinematógrafo que funcionava ao lado do Petit-Salão; o Quartel do Treze, o 13° RCI; Telefonia Rural com 204km e oito estações; uma permanente expectativa de enriquecer com o ouro; estradas, as melhores do Estado; o ônibus Ford modelo-T, entre Lavras e São Sebastião, e a jardineira de Matheus Peres, levando passageiros ao Ibaré; o Sport Club 20 de Setembro, o Atlético, o Primavera, o Vasco da Gama e o Gel; as fábricas de sabão e café do Zeferino Teixeira e as botas do Ney Silveira Gomes; a salameria La Negrita de Lucas Podolski; a cantina do Luis Poglia; a laranjinha Ferreira, dos irmãos Ferreira; as azeitonas do Padre Antônio; as maçãs do Dr. Calero; as uvas do Dr. Bulcão; os jornais “Thezoura”, “A Gazeta”, “O Colibri”; os figos pingo-de-mel das chácaras do Cerrito; os marmelos e os pessegueiros que enfeitavam as cercanias da cidade; os bailes memoráveis nas casas do Seu Terto, do Seu Nagib, e da D. Adelina Tavares; os bailes do Clube, da Chita, do Trigo e da Pelúcia; os grandes Carnavais de Lavras; as lindas serenatas de estudantes…—-Do que mais elas se lembram são das carretas quitandeiras, rua afora: “- Olha a moranga! A Batata-doce! Mandioca!… “Elas se iam, reluzindo suas plaquinhas da intendência , estampadas no recavém: “- Olha o frango! Lenha seca! Raiz de aroeira!”.—-A malsinada praga do padre ficou tão drasticamente arraigada no inconsciente do cidadão lavrense, que em certa ocasião, quando estava sendo feita uma pintura nova na Igreja Matriz, um morador lá do Rincão dos Saraivas, com o seu pessimismo a respeito do futuro de Lavras, olhando para sua torre, ao vê-la assim toda circundada de tábuas e andaimes, teria comentado: “- Até a Igreja vão levar embora, já está toda engradada para seguir viagem!”.—-Segundo velhos ensinamentos, toda a praga, após cem anos de rogada, perde os seus eflúvios e os seus prognósticos maléficos. Lavras, com certeza, hoje está livre dessa condenação do padre, desembaraçada daqueles anos de angústia. —-Sua praga inaudita, como uma pipa em frangalhos, balança desairosa no poste de uma encruzilhada. É uma lenda apenas.—-O nosso município tem hoje modificado o seu destino, experimenta, efetivamente, lances notáveis de melhoria e progresso.

Referência Bibliográfica:

Teixeira, Edilberto. Lenda da Maldição do Padre. In: Lavras na Bateia do Tempo. 1992, p. 473 – 477.

http://dadomoraes1950.blogspot.com/2012/11/origem-e-fundacao-da-cidade-lavras-do.html

Lavras do Sul/RS, Brasil